Parasitas devem ser exterminados 

A adoção de alegorias como meio de representação figurada de ideias é recorrentemente utilizada com o intuito de difundir, junto à população, certa ideologia de interesse do governante de plantão. Crenças podem ser transmitidas por líderes considerados como “esclarecidos” ou tidos com qualidades messiânicas, através de manipulação midiática, com referências a mitos, parábolas, imagens ou símbolos, onde busca-se atalho ao inconsciente coletivo, de forma que certa afirmação seja aceita como verdadeira.

Exemplos históricos não faltam, e os instrumentos retóricos utilizados, por serem universais e atemporais, voltam de quando em quando e em locais distintos: em 12 de setembro de 1938, em Nuremberg, o então Fuhrer alemão, referenciando-se aos judeus, enunciou: "A nação não deseja mais ter seu sangue sugado por esses parasitas". A utilização do termo “parasitas” foi extremamente eficaz para alcançar-se os objetivos desejados pelo III Reich: obter um bode expiatório para as agruras vividas pelo povo alemão após a 1ª guerra mundial.

Hoje, após 82 anos desse discurso de Nuremberg, vemos, estupefatos, na mesma toada, o atual Ministro da Economia adotar tática similar, ao buscar um bode expiatório para o imenso déficit público herdado da mal sucedida política econômica dos últimos anos, que levou o país a um número recorde de desempregados e falências a partir de 2016. E quais foram os “parasitas” escolhidos pelo Ministro?

Não há coragem ou conveniência política para eleger-se como “parasitas” os grandes especuladores financeiros que fomentaram a manutenção do déficit público ao longo de décadas, com a altíssima taxa básica de juros, absorvendo mais de 40% do orçamento da União.

Também não se ouve mais referência, como se ouvia em breve passado, às “quadrilhas de corruptos” que saquearam, por anos, o tesouro público, estatais e fundos de pensão. Esses não são os parasitas agora a serem exterminados.

Por outro lado, com a já aprovada reforma previdenciária, também não há mais necessidade chamar os aposentados de “vagabundos”, parafraseando certo ex-presidente; a escolha, desta vez, é fazer surpreendente coro com seu sucessor, que expôs menosprezo pelos servidores públicos concursados, ao qualificá-los como “menos honestos” do que qualquer político.

A generalização da declaração do Ministro da Economia foi clara: a frase "o hospedeiro está morrendo, o cara virou um parasita, o dinheiro não chega no povo" não foi retirada de seu contexto pela imprensa. Trata-se, pelo contrário, de elaborado e meticuloso novo desdobramento da contínua e progressiva desqualificação maquiavélica de certa parcela da população: toda a classe dos servidores públicos é eleita como “parasita” da sociedade brasileira com a benção de fatia considerável da mídia.

O objetivo é transparente: atribuir-lhes a responsabilidade pela frustração da população frente à incapacidade do Estado Brasileiro de atender à demanda por serviços públicos de qualidade ou gerar os investimentos necessários, sejam os pertinentes à modernização e expansão de nossa infraestrutura, sejam aqueles vinculados à pesquisa, desenvolvimento e domínio tecnológico considerados estratégicos para o país. Não há outra conclusão a se chegar: a mensagem expressa pelo Ministro coloca à sociedade a necessidade de eliminação desses “parasitas”.

Adotando-se a tese do Ministro da Economia, fundada em argumentos falaciosos, que identifica o servidor público em geral como “parasita social”, não haveria espaço para qualquer rota alternativa: estes deveriam ser exterminados, pois parasitismo não é simbiose. Assim, a afirmação do Ministro, no sentido de que servidores públicos são “parasitas”, equivale a defender a extinção dos cargos e empregos públicos: professores, profissionais da saúde (inclusive aqueles vinculados ao Sistema Único de Saúde que salvaram a vida do atual Presidente da República em Juiz de Fora, na campanha eleitoral), assistentes sociais, agentes da segurança pública e fiscalização, militares, advogados públicos, trabalhadores da limpeza urbana, do transporte público, dentre muitos outros que se desdobram para atender à população mais carente ou combater a corrupção, a lavagem de dinheiro, a sonegação e a criminalidade em geral deveriam deixar de existir. Tais agentes públicos, que cumprem seu ofício, apesar do sucateamento da máquina pública, objeto de pilhagem pelos verdadeiros saqueados do Estado, deveriam, pela retórica do Ministro, ser extintos.

Frente a tal quadro, a Associação Nacional dos Auditores Fiscais de Tributos dos Municípios e do Distrito Federal – ANAFISCO manifesta total repulsa à qualificação genérica, expressa, em 7 de fevereiro de 2020, na Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, pelo Ministro da Economia Paulo Roberto Nunes Guedes, quanto aos servidores públicos.

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